terça-feira, 31 de dezembro de 2013

mar afora

todos os corpos têm seus risos, alguns adormecem na sede do abraço, outros têm tremores oníricos-noturnos, e há aqueles que desajeitadamente desenham um quatro com as pernas e respiram ofegantes para cima

mas o seu

o seu tinha braços de tragédia

todas as noites antes de dormir você repousava a mão sobre a testa como um Édipo sofredor, os seus braços desenhavam todas as tragicidades das fábulas, e então você apagava tragicamente

tragicamente
você apaga

o nosso problema
é que você fala de Aristóteles
e eu falo de Magritte
o nosso problema
é que você é discado
e eu sou banda larga
eu tô abrindo várias abas e você tá dando lag
você tá dando lag
o nosso problema é que você é pra dentro e eu sou pra fora
fora da gaiola

vem cá pra fora
tem noites de amor
tem choro de despedida
tem chocolate
tem

eu decidi, eu vou pra fora, ainda mais pra fora
eu vou no ano que começa, eu vou agora
eu vou pra longe de você, eu vou embora
e assim não é seu medo que me impede de você
não o seu pequeno medo que me impede de você
lá fora quem me impede é o mar inteiro
ele é gigante
conforta impedimentos
alivia os meus intentos.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

o que eu espero de você

no plano real
- que você me escreva de novo
- que você me ligue de novo
- que você me veja de novo

no plano sexual
(este plano está entre o real e o ideal porque ele se dá entre a vida e a morte)
- que você veja o meu novo estilo de depilação na virilha e as posições sexuais que eu treinei com outros homens
- que você chupe meus peitos e minha boceta com mais vontade do que todas as vezes que você já me chupou
- que você me aperte me bata me morda e enfie o seu pau em mim com mais força do que todas as vezes que você já enfiou

no plano ideal
- que você fique absolutamente transtornado de amor com o meu retorno
- que você perceba que, apesar do fim, a nossa história está só começando, e que ela vai durar no mínimo uma vida inteira
- que você largue tudo e se case comigo 

sábado, 21 de setembro de 2013

5.24 vigilante

eu te vejo na rua.
você fuma.
eu paraliso.
eu espero você sumir.
você some.
eu sento.
eu respiro.
eu entro.
você está deitado.
eu sento atrás de você.
eu assisto.
você olha para trás rapidamente.
você se assusta.
você torna a assistir por meio segundo.
você olha para trás longamente.
você pensa.
você olha para trás de novo.
você se levanta.
seus papéis caem.
você recolhe.
você vem até mim.
você beija meu rosto.
eu contraio todos os músculos.
você sério.
eu séria.
eu digo oi.
você diz oi.
você sorri.
você some.
eu engulo o choro.
eu controlo a respiração.
eu engulo o choro.
eu controlo a respiração.
eu engulo o choro eu controlo a respiração eu engulo o choro eu controlo a respiração eu engulo o choro eu controlo a respiração eu sempre me perguntei se o que eu sentia por você era real ou era um sentimento da lembrança do que eu imaginei ser você e então eu descobri que é real eu engulo o choro eu controlo a respiração eu engulo o choro eu controlo a respiração eu choro e engulo novamente.
eu assisto.
ela surge.
eu não ligo.
eu assisto.
você está lá.
ela está lá.
eu me sinto à vontade.
eu me sinto no sofá da sua casa.
eu mudo os sofás em que me deito mas ainda é a sua casa.
eu assisto.
você se agacha diante de mim.
você me oferece vinho.
eu aceito.
eu estou no sofá da sua casa.
você me traz vinho.
eu estou no sofá da sua casa.
eu vou ao banheiro muitas vezes.
eu estou no sofá da sua casa.
eu saio.
eu fumo.
eu estou há mais de 9 meses de distância do sofá da sua casa.
eu converso com o vigia.
eu retorno.
eu assisto.
eu assisto.
eu assisto.
você some.
eu não quero ir embora.
eu vou embora.
eu te vejo.
você sorri para mim.
você diz tchau.
eu não sei sorrir para você.
eu não sei sorrir para você você não sabe sorrir para mim eu prefiro você derrubando os papéis eu prefiro você sério comigo você tem que falar sério comigo você sorrindo assim não combina com a gente não é leve por favor não banaliza esse sorriso.
eu chego em casa.
a minha mãe diz que eu estou bonita.
eu me pergunto se.
eu me pergunto se.
eu como.
eu durmo.
eu sonho com o que vi.
eu acordo. 
vigilante.
eu não durmo.
você está acordado lá.
eu estou acordada aqui.
eu te.
eu.
você?
eu engulo o choro.
da minha janela eu já não te vejo na rua.
eu acabei de acordar mas faz meses.
que eu não durmo.

domingo, 8 de setembro de 2013

aquela cidade nos meus restos, ou o que restou daquela cidade

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a adolescência, as cachaças, as rimas da minha língua, as pequenas casas noturnas tão quentes, a falta de rigidez das madrugadas, os meus homens daqui, os meus homens daqui, os meus homens daqui, o colo da minha mãe. se é disso que eu sinto falta, porque eu não retornei pra isso?
porque eu nem sei se isso existiu, eu pensei.
porque isso está falido.

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“não é sonho”, eu pensei, ao reconhecer as casinhas de pedra através das janelas. “é aconchego”.
aqui é uma casa. uma casa onde eu posso ser sozinha. uma casa onde eu posso ser cigarros. uma casa onde eu posso ser silêncio.
aqui eu sou a minha própria casa.
(e o gosto dele ainda na boca.)

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(a voz dele ainda no meu cérebro)
sinto que aqui, as vozes e os gostos podem, definitivamente, virar passado.
eu quero viver aqui, sem saudade de lá. aqui é o recomeço.
a falta de tratos é passado também.

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eu fiquei sentada ali e simplesmente deixei que meus olhos fluíssem pelas pedras. eu vi casamentos. eu vi milagres. eu vi sangue. eu nunca imaginei que um lugar sacro fosse tão inspirador para a poesia profana. meu sexo se esvaiu. eu estou aqui. eu quero estar ali, nas paredes. nos vitrais. uma pintura. uma pedra. dura. sem calor. a função certeira da existência. sem suor e esses gritos.

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fogo e água corrente, vindos da cabeça. essa é a morte: invasiva. lembro de toda a morte do outro lado do oceano. morte minuto após minuto. minuto após minuto. ele me pediu para que não fôssemos tão distantes. acho que eu nunca vou conseguir fazer nada que ele me pede, eu preciso voar na direção contrária. eu quero expulsá-lo. aquela garota cretina quer me explodir, eu espero que ela exploda. eu quero dissolvê-lo de mim, em mim, o fogo que acende, a água que escorre, eu não quero voltar para a morte.

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eu observava “cupid complaining to venus”, de lucas cranach, e um pai explicava o quadro para o filho. ele dizia que sempre que há prazer, há dor, ele dizia isso com o peso dos adultos, e a criança talvez tenha entendido. o sofrimento e o amor. os amores alegóricos de paolo veronese. eu estou procurando amor em todas as paredes, e posso vê-lo até nos sexos das virgens.
(nos olhares desencontrados de robert campin.
meu e seus.)
rembrandt fez um autorretrato aos 34 anos de idade e outro aos 63. ele está com uma aparência similar, porém usa tintas mais escuras e borradas no quadro mais recente. deve ser terrível.  viver até que os órgãos as peles e os sentidos escureçam e se borrem.

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eu revi minha antiga escola em holborn. eu revi minha antiga casa em woodford. eu chorei sem lágrimas. wild is the wind, mas isso foi antes da ventania. eu tinha medo de voltar para casa no escuro, eu tinha medo dos homens de bicicleta, eu sorria, eu não via os meus ossos, eu sorria muito, wild is the wind, wild is the wind, wild is the wind, por que o meu passado de amor está comendo o meu frio com tantos dentes? dói. eu acabei de ler a peça “the strange undoing of prudencia hart”. é sobre uma menina que luta por sua linguagem. ela encontra um primeiro homem que acredita nela. ela vai até sua casa, e descobre um imenso escritório encantador, com livros. ela descobre que a casa é o inferno e que o homem é o demônio. ela vive uma história de amor com ele. mas ela precisa abandoná-lo, porque ele é o demônio. o processo de abandono é doloroso. ela precisa de ajuda. ela vai embora, após dois milênios de amor. ela se transforma em um demônio também. essa é a minha história. essa história é minha.

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eu sou feliz sozinha. os jogos, os testes, eles não me fazem sentir, nada que não seja verdade me faz sentir de verdade. eu procurei maneiras de substituir o amor, eu achei que o consumo seria um bom escape. eu não aguento mais. eu odeio a picadilly circus. eu consumi até um homem hoje. depois descartei, como se faz com as coisas. ele me chamou de mermaid. ele falou dos meus eyes, lips. ele ficou derretido, ele tremia, eu nunca vi um homem assim. o meu amor, ele costumava falar dos meus olhos também. eu acho que ele também tremia por dentro, eu acho que ele também explodia. os cigarros hoje me deixaram com uma calma cruel. eu te amo, eu quero ser tão cruel quanto você, eu sou um pequeno demônio deprimido agora. todos no hyde park me olham. tudo o que eu quero é ser sozinha, como você. eles me querem. eu quero a mim mesma. eu amo você. eu amo vocês, meus homens lá de trás. e agora eu sou só eu. eu sou feliz com meu livro e eu. meus cigarros e eu. eu e meu silêncio. “just leave.” eu. eu. eu. meu leão.

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aqui eu sou até bonita. aqui eu sinto até conforto. eu não quero voltar. a nossa casa é onde a gente tem sensação de pertencimento. eu encontrei o meu lugar.

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ao entrar em um aeroporto, você já não está mais em um país, você está em um limbo. não há nacionalidade, não há linguagem, não há amor. eu quero dar meia volta e voltar para casa. eu já urinei quatro vezes hoje.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

a little something for an old friend

yesterday i saw “the strange undoing of prudencia hart”, a theatre play about a girl who falls in love with the devil. they love each other, but viver no inferno é terrível. so, she leaves him. and leaving him is terrible as well. but she must do it. she doesn’t wanna be dead anymore. now she can discover a new language, she can forget the ballads and sing a new song, out of her celas tão eternas. but it’s still old. because it’s still about him. i'm free now. hell is inside me. when she left him, she said: “eu amo você, but even love’s made hell by immortality. i’ll miss you, devil, i wonder if you’ll miss me.” can you feel it? today i bought lots of gifts for everybody. i bought nothing for you. but i wanted to. this kylie’s song is from the soundtrack of the play, and this is my present for you, do outro lado do oceano. this is just a party song, but in prudencia’s voice, this is our hell song. feliz aniversário.

“i just can't get you out of my head
boy it's more than i dare to think about
every night
every day
just to be there in your arms
won't you stay?
won't you lay?
stay forever and ever and ever and ever
(...)
set me free.”

(o meu coração voa. de novo. e de novo. e de novo.
mas ele ainda está aí.)


quinta-feira, 25 de julho de 2013

eu-breton, para as minhas uniões

meus homens com os cabelos de antracite
com os cabelos de cinzas de cigarro
e com os pelos de cerrado
e com as peles de pães crus pães fermentados pães embolorados
meus homens com pensamentos de crisálidas
com pensamentos de tempestade
com pensamentos de flor de lótus
meus homens com as bocas de júpiter em combustão
com os dentes de lobisomens em lua cheia
com as línguas de carros de corrida
de febres dominicais
meus homens com as sobrancelhas de neblinas
com as sobrancelhas de irídios
de esfregões de limpeza
meus homens com os narizes de monarquias absolutas
meus homens com as barbas de urtigas
com as barbas de lixo europeu
meus homens com os ombros de dinossauros fossilizados
meus homens com os peitos de tábuas tortas
com os peitos de f(r)icções infantis
meus homens com as costas de lixas de unha
com as costas de calor
e com os pescoços de carne mal passada
meus homens com os braços de jararacas
e com os pulsos de ponteiros de relógios desordenados
e com os dedos de farpas
de agulhas de vacina
de bordas de papel sulfite correndo na pele
de sobremesas açucaradas
meus homens com os pés de atobás
com os pés de máquinas para pegar ursos de pelúcia
meus homens com as pernas de relíquias arqueológicas
e com as nádegas de pontos turísticos
meus homens com as barrigas de todos os reflexos de todos os gritos surdos
com as barrigas de verões
de compostos de etanol de pele de etanol de pele
meus homens com as ancas de britadeiras
e com os movimentos que acompanham o meu ventre
e com os sexos de espumas quentes de mares quentes
meus homens com os sexos de chaves maiores que as fechaduras
de chaves que arrombam as fechaduras
meus homens com os sexos de banquetes agridoces
meus homens com os sexos de monóxido de carbono
com os sexos de surra
e com os olhos de fúria
meus homens com os olhos de patas de insetos
com os olhos de equipamentos portáteis de visão noturna
meus homens com os olhos de grutas ocas
de noites nos desertos
com os olhos de noites e de noites e noites e de noites e noites e de noites.

sábado, 13 de julho de 2013

2.

no ano passado eu tentei comemorar essa mesma madrugada com você. não deu certo, nossas agendas se desencontraram, como sempre. mas eu te mandei um recadinho e você me respondeu. você sabia que a data era importante para mim. fazia um ano desde que aquilo tinha acontecido conosco. comigo. e agora faz dois anos.

como você está?

eu tenho vivido tempestades. eu sabia que isso aconteceria depois que cada um seguisse o seu caminho. porque eu não teria mais você para cuidar de mim. e então eu não teria mais ninguém para cuidar de mim. e então eu ficaria maluca de vez. e então tudo seria uma tentativa devastadora de ter todo o controle que eu não tive com você. eu sinto sua falta. eu sabia que seria mais difícil do que parece. é mais difícil do que parece.

se você ainda estivesse aqui, será que nós comemoraríamos essa madrugada? os dois anos da minha liberdade, e nós éramos tão presos. talvez nós não conseguíssemos. a madrugada de sexta para sábado quase nunca era boa para nós. os finais de semana quase nunca são bons para quem se esconde.

se você ainda estivesse aqui, eu ainda estaria girando em torno de você e você ainda seria o meu equilíbrio e o meu desequilíbrio. o meu equilíbrio e o meu desequilíbrio em dois anos e meio de relação. o meu equilíbrio e o meu desequilíbrio na constância. agora eu diluí os meus eixos e os desequilíbrios têm sido cada vez mais frequentes, por mais que o esforço tenha sido na direção contrária. eu não tenho você para me aconselhar, eu estou solta com a minha loucura. essa madrugada é minha e a celebração é solitária. você jamais guardaria a data. porque nada mudou para você há dois anos atrás. quem se transformou fui eu. com você. se você ainda estivesse aqui, será que nós comemoraríamos essa madrugada?

eu abri o meu diário e havia muitas coisas escritas sobre aquela madrugada.
eu dizia
agora é uma sala aberta.

talvez eu apenas precise fechar novamente. o diário. a sala. eu.
e parar de sentir. e parar de ser. e parar de querer.
e parar e parar e parar e parar e parar e parar e parar.

eu tenho tantas coisas para dizer, mas acho que não consigo dizer quase nada, eu choro muito.

como está N., que sempre me recebia com tanto carinho? eu sinto falta dela também.
será que nós estaríamos na sua casa? será que ela comemoraria com a gente?

eu acho que você celebrou a nossa data e datas e amor no ano passado, da sua maneira alternativa. você me amou em pequenas doses, e eu quase não vi. você me amava quando você me buscava ou me deixava na porta de casa, é delicado. você me amava quando você ficava feliz pelas minhas pequenas conquistas. você me amava quando você não tinha pudores em me falar sobre alguns dos seus problemas. você me amava quando ouvia todos os meus problemas com um carinho protetor. você me protegia tanto que me mimava, você me dava docinhos, você me queria feliz. isso é mais importante que o calendário. me desculpa, eu quase não vi.

você me viu?
se você ainda estivesse aqui, será que nós comemoraríamos essa madrugada?

há dois anos atrás era você ao meu lado, o cigarro queimando rápido daquele jeito, eu e a dor, eu e o silêncio, você achando os meus olhos gigantes na escuridão do princípio.

eu amo
enfim.

feliz dois anos do meu corpo.
para o meu próprio corpo.