terça-feira, 16 de abril de 2013

homens politizados

um homem que se diz de esquerda, mas que enxerga outra pessoa não como uma pessoa e sim como um problema a ser eliminado,
não entende nada sobre política.

um homem que discute os males do mundo capitalista, mas acha que a melhor maneira de lidar com um problema (pessoa), é ignorando-o, ou seja, seguindo a lógica do abafamento, da opressão e da alienação aplicada a seres humanos,
não entende nada sobre política.

um homem que estuda, questiona, exige posicionamento alheio, mas opta por posicionar-se ignorando um problema (pessoa) que está à sua frente, utilizando desde palavras não ditas até jantares amistosos regados a cerveja e maconha enquanto o problema (pessoa) espera uma resposta para um conflito que ainda é latente,
não entende nada sobre política.

um homem que participa de manifestações e entende sobre partidos, mas tangencia conflitos para preservar a própria paz, ignorando o inferno do outro, inferno este que ele próprio ajudou a criar,
não entende nada sobre política.

um homem que cria mundos utópicos, mas que cria infernos nos mundos reais por falta de capacidade (vontade) de compreender, respeitar e preencher as delicadezas dos tempos (momentos) e de encarar em conjunto as problemáticas que foram criadas em conjunto,
não entende nada sobre política.

que homem ingênuo o que pensa que a política está completamente distante! apenas no governo. nos órgãos institucionais. nas discussões filosóficas dos universitários idealistas. alguma instância da política está, de fato, longe, e deve sim ser discutida. mas a relação primeira está aqui. o ato político primário se dá na relação com o outro. na capacidade de transformação minha e do outro e na abertura para lidar verdadeiramente com os afetos e afetações que isso envolve. é necessário tentar verticalizar a experiência no campo do sensível. tentar olhar o outro nas pequenas relações. tentar olhar o outro. se esse passo básico, quase infantil, não é dado, é impossível dar os passos gigantescos para mudar coisas maiores (o mundo, como querem os homens ditos politizados). 

encarar o problema de frente, chafurdar nele, bater na mesma tecla até que vire pó. agora exposta. sem covardia. esse é meu ato político e talvez performativo. dói, mas eu não fujo.



sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

o lobisomem

1. O RASGO
é cinza como a tarde no começo e azul como a neblina no depois. vem cá, lobinho, é frio, eu vi você rasgado, não veste, eu aranquei a sua roupa com amor, não cria pelo pelo pelo pelo pelo pelo pelo que era meu repete não assim se você me deixar em carne viva eu vou vomitar imitar você para você PARA - de repente é ele rasgando e eu vermelha como a morte, ele deixa pra morte, esse bicho, eu fiquei vomitando os restos daquilo que eu nunca deveria ter engolido.


2. A METAMORFOSE
eu sonhei que eu era um lobo eu acordei eu era um lobo eu acordei e era eu sonhei que era órfã de sol eu sonhei que eu era um princesa eu acordei eu era um lobo eu acordei e era eu sonhei que rasgava eu vou vomitar imitar você para você PARA não veste eu rasguei a sua roupa com VOCÊ me deixar em carne viva! VIVA! eu prometo rasgar você, eu prometo.

3. A LUA
segurar os pêlos pelas unhas e ver a luz branca subindo, é assim, você segura os pêlos pelas unhas e vê a luz branca subindo, é uivante, segura os pêlos pelas unhas e vê a luz branca subindo, a pele do monstro tem gosto de açúcar e ele é mais forte que você, mais forte pelas unhas e vê a luz branca subindo, é assim, as unhas e ver a luz, as unhas e verá luz, não corre - não corre, as unhas sem vomitar (agora já é depois).

sábado, 19 de janeiro de 2013

solvente intrín(seco)

(uma sala ou um oceano)

Uma dor de cabeça crônica que começa nos lobos parietais do meu cérebro e se estende até o lobo frontal do meu cérebro desde que aconteceu aquilo. Eu tenho pensado naquilo tanto, tudo aqui dentro. Eu tenho me descolado do meu cérebro, eu tenho falado pelo centro do meu corpo.
Uma dor típica dos problemas de visão e então eu tive que ter certeza, eu tive que me assegurar de que estava enxergando tudo direitinho. Eu estava.
Os olhos fechados e de repente aquela noite em que eu resolvi esmagar vaga-lumes com as mãos para comer as luzes, eu fiquei me perguntando se não era esse tipo de lembrança que estava comprimindo o meu cérebro até que ele sangrasse.
Os dedos dos meus pés amortecidos como o amor que eu teci. Eu abro os olhos e percebo que os dedos dos meus pés desapareceram, eles tornaram-se líquido azul, e então o corpo inteiro se degenerando e virando essa coisa. Azul. De baixo para cima. Não morrer, com toda a tragicidade da morte, mas sumir, com todo o mistério do desaparecimento. É assim. Quando você comete algum tipo de assassinato para obter algum tipo de iluminação. Você some.
Quando o cérebro começa a ser destruído, ele dói.
A minha poltrona encharcada. A minha cadela não tem para onde nadar.
A sala já é um oceano sem água
Para que seja eu
Para que seja
os meus lobos parietais localizados no centro da minha existência - o tato - a dor - a temperatura corporal - os estímulos dos lábios - língua - garganta - estava tudo organizado e de repente está tudo comprimido - o meu lobo frontal localizado na frontalidade da minha existência - os movimentos - as abstrações - estava tudo concreto e de repente está tudo derretendo - envio comandos para os dedos dos pés e eles não me obedecem mais - EU AINDA SOU VOCÊ - NÃO SE DESCOLE DE MIM - eu ainda não quero perder os comandos - eu ainda não quero perder o controle - eu ainda não quero sumir - eu ainda
Eu tenho pensado naquilo tanto, tudo aqui dentro.
Eu fiquei me perguntando se não era esse tipo de lembrança que estava comprimindo o meu cérebro até que ele sangrasse.
Morrer. Sumir. É assim. Quando você comete algum tipo de assassinato para obter algum tipo de iluminação. Você some.
A minha poltrona encharcada. A minha cadela não tem para onde nadar.
A sala já é um oceano sem água
Para que seja eu
Para que seja
eu poderia ser de couro mas o meu tecido é fino: encharcado: eu poderia ter dois lugares mas eu estou aqui comportando um único ser humano : daqueles que não são inteiros: daqueles pela metade: este ser sobre mim era um peso e agora é um peso menor: o peso de tudo aquilo que não é sólido: água em mim: eu tenho espaço para uma pessoa só: água em mim: eu vou começar a boiar daqui a pouco: água em mim: quando o líquido azul chegar ao teto eu terei espaço suficiente para duas pessoas: eu vou virar uma baleia...
Comprimindo o meu cérebro.
A minha poltrona encharcada. A minha cadela não tem para onde nadar.
Oceano sem água
Para que seja eu
Para que seja

fala comigo olha pra mim não some eu não posso beber essa água que você virou me dá água de verdade tem gosma cinzenta nessa sua água você está ficando azul demais socorro eu não tenho para onde nadar volta pra forma de antes volta eu vou morrer eu vou sumir junto com você está entrando nos meus buracos você está entrando no meu focinho eu vou nadar até o teto e depois
Que seja.

(inundação de ondas ou móveis)

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

doze movimentos para dois anos

Um
o final das histórias reflete a essência delas. tudo aquilo que começa com omissão só pode acabar de maneira violenta. ele não aceita que eu seja contraditória. eu não posso amar e romper ao mesmo tempo ele não entende ele me agride. pra quê banhos tão longos tantas horas de preparo tanta maquiagem? pra quê tanta ansiedade tanta fome de ver? pra quê tanta cama tanto sexo?  pra quê tanta aceitação? a verdade é que esse homem não aceita que eu sinta amor por ele. eu não quero que nada parecido aconteça comigo de novo. eu nasci sem casca. as coisas não chegam até mim - elas me invadem de uma vez. o mundo é uma catástrofe invadindo minha carne. as pessoas com casca, elas me irritam profundamente. elas falam e agem sem medo de ferir. eu fico tomada de ódio pela minha carne violentada e arranco a casca dessas pessoas eu arranco com a faca arranco com as unhas. mas quando eu arranco a casca delas. elas morrem.

Dois
uma noite ele estava em cima de mim e eu disse: mas isso só acontece porque você foi meu professor e eu fui sua aluna e ele disse: eu não dou a mínima para o fetiche eu poderia ter te visto num bar e eu ia te achar uma gata mesmo assim eu ia falar com você mesmo assim e eu pensei: que bobo, um velho num bar.
Três
na primeira vez que fez aquilo comigo ele disse que queria ser lembrado como um amigo pra todas as horas - alguém pra confiar. a palavra amigo soava estranha pra mim mas mesmo assim eu achei bonito. ele queria que eu guardasse essa lembrança eu queria guardar essa lembrança mas era uma lembrança de mentira. ele omite tudo e as lembranças são de mentira por causa disso. ele queria que eu omitisse também. eu não vou.
Quatro
eu deitei no peito dele uma vezno quarto dele uma vez,  a carne exausta.  a gente ficou ouvindo aquela música que dizia love me love me, say you do, let me fly away with you, we’re creatures of the wind, wild is the wind,  give me more than one grasp, satisfy this hungryness, we’re creatures of the wind, wild is the wind, you touch me I hear the sound of mandolines, baby, you kiss me, with your kiss my life begins, com seu beijo minha vida começa minha vida começa minha vida começa minha vida começa minha vida
Cinco
a gente fingiu que criou vínculo profissional pra gerar dependência. eu fingi que precisava da ajuda dele e ele fingiu que me ajudava. é uma enganação acreditar que a perda está na instância profissional. há uma história de amor chegando ao fim da pior maneira e isso é tão tão mais importante.  eu disse que ele sofreria menos que eu e ele sentiu ódio de mim por causa disso. mas estamos falando sobre solidão. abandonar alguém que você ainda ama é como ser abandonado. eu abandonei esse homem e ele ainda tem a mulher dele. eu me abandonei e vou ficar no escuro - o mundo vai ter que começar de novo. então sou eu sim quem sofre mais e que briga boba, essa, de saber quem sofre mais, mas eu insisto que sou eu sou eu sou eu sou eu sou eu
Seis
bem no começo, quando eu era adolescente, no meio do amor eu montei em cima dele e eu fiquei desesperada porque eu senti vontade de fazer xixi – você se lembra? calma calma calma eu to com vontade de fazer xixi. eu corri pro banheiro e nada saía de mim eu voltei sem graça e sem entender. depois eu descobri que era vontade de outra coisa.
Sete
hoje é dia vinte e sete do doze de dois mil e doze e eu pedi pra ele marcar a data na agenda porque seria nosso aniversário  de dois anos. eu nunca fiz dois anos com uma pessoa. eu nunca vou saber se ele reservou a data de verdade – às vezes você fazia isso de dizer que ia guardar o dia pra gente e desmarcar em cima da hora. hoje faz uma semana que eu rompi. o nosso aniversário de dois anos virou missa de sétimo dia.
Oito
pra quê tanto cuidado pra escolher a lingerie, meu deus, se ele tirava tudo com tanta pressa? quando eu sentia prazer, eu chorava. uma noite no quarto de motel a gente entrou na hidro enquanto a água subia bem devagar. eu olhava praquela hidro vagabunda e dizia a gente parece milionário – porque tudo era tão tão rico com você por perto. quando ele tentou ligar os jatos direcionados a gente sentiu cheiro de queimado e teve que ficar com a hidro sem massagem porque ela estava completamente quebrada. eu fiquei morrendo de medo daquele cheiro e imaginei aquele quarto pegando fogo mas até que seria bonito um final assim: nós dois morrendo juntos depois do amor.
Nove
eu não tenho homem aqui em casa. o meu pai e o meu irmão eu não vejo. eu projetei um pai e um irmão e um namorado em um homem comprometido que me comia. ele projetou uma mulher adulta e esclarecida e bem-resolvida e moderna e poligâmica em uma adolescente virgem. dadas as circunstâncias nós dois temos problemas mentais visíveis. risíveis.
Dez
eu devolvi o livro que ele me deu mas memorizei a dedicatória, ela dizia: uma das coisas (são poucas) que mais me importam e me interessam na vida está neste livro. dando este livro pra você, deixo contigo um tanto do que sou feito (você é feita disso também). com amor, C. com amor com amor com amor com amor com amor com amor com amor
Onze
ele é amigo de todas as exs dele. todas são estonteantes e incríveis e importantes. a mim ele detesta a mim ele despreza de mim ele quer distância. eu respirei e me senti única, enfim, pela primeira vez. exceção pelo ódio. especial.
Doze
ele disse que não há mais respeito entre nós - portanto não há mais segredo. minha história de amante. está tudo aqui: escancarado. eu não sei porque doze movimentos. talvez porque o número doze tenha um dois, e multiplicado por dois dá vinte e quatro, que também tem um dois e é o número de meses de dois anos, portanto dois meses da história cabem em um movimento, dois em um – aquele livro que eu te dei, sabe? porque o dois está em tudo. nós dois. eu queria quantificar tudo encaixar tudo mas nada do que realmente importa está no campo dos números. o que aconteceu está além. é isso: a janela do meu quarto dá de cara para a rua onde ele parava o carro. eu nunca mais vou ver o carro dele lá.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

cenário para o fim do filme

onde? ele disse, e eu escolhi o mar. o mar é muito longe, ele disse, a gente não chega, é melhor algum lugar na cidade mesmo. não existe, eu disse, não existe lugar na cidade que comporte o que vai acontecer, eu preciso te dizer o que eu preciso e correr pra água depois, foi você quem me ensinou o afogamento, a falta de ar, e eu preciso voltar pra lá, pro escuro das ondas, escuro das coisas, você já lavou tudo aquilo que existia dentro de mim, eu disse, eu preciso que o mar me lave por fora, eu não vou conseguir recuperar nada daquilo que você me tirou, eu vou tirar você de dentro de mim e isso vai gerar tempestades, não há calçada na cidade que suporte as rachaduras, não há estabelecimento que sustente essa lembrança, eu preciso entrar em um lugar pra nunca mais sair, eu disse, pra nunca mais voltar, só o mar comporta porque ele comporta o mundo inteiro, ele comporta tragédias de guerra e de fome, então talvez ele comporte tudo aquilo que eu perdi, tudo aquilo que eu vou romper, o mar me chama pra queda. o mar é muito longe, ele disse, a gente não chega, então eu escolhi algum lugar na cidade mesmo –  o mar vai ficar aqui dentro.

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

eu não bebo leite

é leve, o amor.
você dorme sozinha todas as noites em um quarto que ainda é um pouco de criança, com paredes de criança e pelúcias de criança. você pensa nele antes de dormir e abraça uma pelúcia, você pensa nas coisas que ele faz com você e ouve a respiração do seu cãozinho na cama - ele respira alto como se ainda fosse um filhote, ele ronca -  você dorme e acorda dorme e acorda num movimento contínuo de ansiedade por vocês, por ele. você sai escondida com ele e você brinca de ter dinheiro, escolhe uma massa cara e fala sobre a europa. é simples assim.
você usa maquiagem bonita, vestido bonito, sapato bonito e sente que tudo derrete um pouquinho a cada vez que ele fala sobre mulheres mais especiais, você escuta tudo tudo tudo com muita atenção até que todas as maquiagens, vestidos e sapatos derretam, até que você esteja apenas revestida por pele,  exposta, esperando palavras que são atravessadas pela invasão antes de nascerem. você ainda com a cabeça e o coração doloridos pela madrugada, recebendo aquilo, recebendo aquilo. na primeira vez que ele fez aquilo com você, ele queria ouvir como é que você se sentia virando mulher, você se lembra de não conseguir falar, de não querer falar, de querer ficar com a nova você, de dormir olhando para o canto e não falar sobre aquilo. agora você já precisava falar alguma coisa e não sabia bem o quê, mas ele não queria ouvir mais nada, ele queria dormir olhando para o canto e não falar sobre aquilo - ele respira alto como se ainda fosse um filhote, ele ronca -  você dorme e acorda dorme e acorda num movimento contínuo de ansiedade por vocês, por ele. você pensa nele antes de dormir, em um quarto de adulto agora, a pelúcia é ele, a respiração do seu cãozinho é ele, você pensa nele e segura-se a ele, você sorri ao perceber que o mesmo homem que foi tão violento com você alguns minutos antes é aquela pelúcia pequena em suas mãos, aquele cãozinho que dorme em suas mãos. é bonito assim.
você acordada vê que ele acorda, ele deita com o corpo perpendicular ao seu corpo, a cabeça dele repousa em seu ventre, você faz carinho nos cabelos nas barbas e nos pêlos todos, é o seu cãozinho, ele beija a sua perna, ele pula como um cão faminto por rua, ele vai para a rua e você toma um banho sem estar suja, com ele você nunca fica suja, porque é ele. você toma um banho com os produtos dele para que os cheiros daqueles pêlos sejam também os cheiros seus, você seca os pêlos próprios com a toalha dele, você nota a escova de dentes de uma mulher no banheiro. a escova de dentes dela é exatamente igual a sua escova de dentes. você tem um impulso inicial de pegar aquela escova de dentes para limpar o lado de dentro do vaso sanitário, você quase faz isso, você sai do banheiro. ele te oferece leite e você diz: eu não bebo leite, ele resolve o problema na hora, ele te faz café. tão simples, você pensa, se a pessoa que você ama não gosta de alguma coisa, você rapidamente faz alguma outra coisa para agradá-la. tão bonito. ele, cão, brinca com outro cão tentando imitá-lo - ele respira alto como se ainda fosse um filhote, ele ronca - você acorda e acorda acorda e acorda num movimento contínuo de ansiedade por vocês, por ele. você bebe o café e observa as duas imagens grudadas na geladeira, tem um índio com a boca igual a dele e tem uma mulher com o sofrimento igual ao seu, você fica se perguntando se foi a dona da escova de dentes quem grudou aquilo lá, se ela também pensou isso, se ela também sofre esperando pela boca dele, ele atende o telefone e você sabe que é ela, você se arrepende de não ter limpado o vaso sanitário com a escova de dentes dela, como é que ela se atreve a sofrer se ele é dela e se é a escova de dentes dela que está no banheiro dele. eu estou sozinha no meu quarto de criança, com dores no sexo e sem data prevista para encontrá-lo.
é leve, tão leve.

domingo, 18 de novembro de 2012

sobre estar cega

eu fico esperando, eu
você me viu murchar e perder as carnes e as peles, você
elas sabem que eu passei meses sem comer, eu passei meses sem comer um grão, as pessoas, elas
eu fico tentando entender, eu não sou nada disso, você sabe, mesmo sem carnes e peles, você
eu estou comendo há meses, eu como tudo aquilo que eu não deveria, eu não sou, você sabe, eu
você deveria me abandonar em breve, eu estou esperando, você
eu ainda não entendo o que é que você está fazendo aqui
elas, as pessoas, elas ainda não entendem o que é que você está fazendo aqui
carnes e peles e comidas a mais, metros a menos, anos a menos, eu tentei, sentimentos nojentos, posse excessiva, tudo de ruim está aqui, tudo de ruim está em mim, eu tentei enxergar o que é que você vê para não sair daqui, para não sair de mim, eu quero ver o que você vê, você não me diz, ou diz e eu não escuto você, eu quero entender o motivo, isso não é normal, você aqui há tanto tempo não é normal, eu queria que você largasse tudo por isso, você largaria por outras, é claro, isso eu já consigo entender, mas a permanência por mim, a permanência em mim,  isso eu já não entendo, eu odeio sentir assim, eu penso em te abandonar todos os dias, VOCÊ OLHANDO PARA MIM, EU NÃO ENTENDO, eu não creio que exista amor fora de mim, que é possível existir, que é possível que você sinta, você sabe que eu sou só isso assim, isso pequeno assim,  eu não enxergo, você sabe, você

você

você sabe que o discurso sobre liberdade é mais fácil quando se tem toda essa segurança, já eu

eu

eu sou invisível para mim.