sexta-feira, 28 de setembro de 2012

para um viajante

vício de ver
febre de não ter o toque seu
você viaja sozinho e eu fico sozinha aqui
eu penso que podemos viajar juntos para algum lugar com mar e mato
eu tenho pesquisado quartos escondidos em cidades escondidas
e eu consigo nos imaginar em cada onda
em cada gota de orvalho
se eu disser que devemos nos esconder nos quartos escondidos das cidades escondidas
para sempre
você não pode dizer que não
você precisa olhar com ternura e passar as mãos em mim com dedos de sonâmbulo
você precisa dizer que sim que foge do mundo comigo sim que fica comigo sim
ali e em qualquer lugar
que já é hora de pintar com cores berrantes
as fitas transparentes que nos unem por todas as vértebras
a bolha transparente que está em volta de nós e do nosso nó
o beijo transparente que guardamos um do outro e um pelo outro durante a distância
você
é tão bonito
e eu quero ser assim também
eu quero ser beleza que pede por cores e berros
eu quero ser mais
que mais uma estrada pela qual você passa
eu posso ser a casa para a qual você retorna
e você pode se sentir à vontade
para pintar-me reformar-me
tirar tudo do lugar
e depois dormir em mim
deixa que eu me limpo sozinha
e dorme
deixa que eu te cuido
dorme dentro de mim dorme
mas sossega nas minhas cores
e esquece essas estradas
não sai mais de casa
Fica.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

a amante

os olhos fechados são traços com contornos de delicadeza. violência transformada. ela passa por cima do sono e observa o homem que dorme. ela precisa registrar o maior número de imagens possíveis disso tudo com os próprios olhos. ela tenta colar o cheiro dele no próprio corpo. ela não sabe o que é que ela faz com a euforia de saber que ele volta, ela não sabe o que é que ela faz com tudo isso. felicidade que afoga. ela tirou algumas fotografias daquele quarto de hotel para poder fugir para as imagens toda vez que o próprio quarto parecesse vazio demais. ela tirou algumas fotografias dele e todas as fotografias saíram desfocadas. mas é possível reconhecer os traços dele e é possível ficar olhando essas fotografias por horas, e é possível ficar sorrindo por horas, pelo simples fato de que ele é real, de que ele é palpável, de que ele está na cabeça, no coração, mas também está na língua, nos seios, no ventre e nas fotografias.  a alegria tem cheiro de chuva e ela sente saudade como quem sente prazer. sente o amor como quem sente prazer.

domingo, 2 de setembro de 2012

o prazer da criação

planificar cada um dos lados da existência, sem pragmatismo.

respeitar cada fragmento como se fosse um ser completo.

e assim compreender-se como algo maior do que aquilo que imaginávamos.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

tormento da pureza e do coração

duas horas da manhã e trezentos e sessenta e cinco dias de afogamento:
a leveza
de um permanente estado de imersão.
- - -
para cada cento e quarenta e quatro horas de descontentamento:
uma hora de inteireza
e essa febre -  essa falta de chão.

sábado, 30 de junho de 2012

fora do alcance das crianças

a maior obra de arte:
o ódio
na carne.
ponta de ferro na tela
dez traços vermelhos e ela:
o foco
desviado.
o desespero da menina
o rasgo na pele fina
o fumarato de quetiapina:
a dor
adormecida.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

apocalipse 48

o primeiro anjo tocou. caiu então sobre a terra uma chuva de pedra e fogo, misturados com sangue. a terça parte da terra se queimou. a terça parte das árvores se queimou. o que existia de verde se queimou.
a semana acaba antes da manhã de domingo. você tem exatas 48 horas para se redimir da ausência de nós. você tem exatas 48 horas para quebrar os vidros de florais manipulados com conhaque. você tem exatas 48 horas para enxugar as lágrimas da hipnoterapia. você tem exatas 48 horas para impedir o vício em benzodiazepínicos. se em 48 horas não houver redenção, vidros quebrados, lágrimas enxugadas e vícios impedidos, nós acabaremos e então eu estarei acabada.  eu sinto que eu não existo quando você não me vê.

terça-feira, 26 de junho de 2012

pesadelo no fim de tarde

abandono externo, escuridão interna. você me dizia que precisávamos dar um jeito em nós dois. você me dizia na nossa língua, você me dizia em francês. você me dizia publicamente que é preciso dar um jeito de chegar ao fim, porque o líquido negro sufocava o líquido branco. e eu chorava a humilhação de ser um líquido negro. e eu perdia a referência das coisas ao perceber que nada mais seria branco entre nós – que nada mais seria colorido dentro de mim. abandono interno, escuridão externa. o silêncio é branco dentro da sua cabeça azul. mas a invasão é negra.  a invasão é consistente. a invasão parece petróleo.  eu sou petróleo afogando a sua luz. eu sou petróleo sufocando a sua alma. um suspiro ao perceber que negro era o meu quarto – que negro era o meu cérebro.